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Política

Formação mínima e participação política

* Waldir Santos

No meio de uma discussão, no Facebook, sobre as peripécias do jornalista Aldo Rebelo, deputado de “esquerda” que vai contra a vontade do povo, pregando a destruição da mata ciliar e consequentemente a morte dos rios, em sua árdua e compreensível defesa dos interesses dos desmatadores, encontro a seguinte pergunta:

Qual a formação mínima para se tornar político no Brasil?

Não existe formação mínima para ser político. Analfabetos podem ser políticos, mobilizar pessoas, defender pontos de vista, protestar, requerer, denunciar, agir, escrever no Facebook, enfim, ser cidadão e transformar o mundo. Durante muito tempo pensei que isso fosse suficiente, mas percebi que precisamos mudar além do nosso mundo. É importante que sejamos políticos independentemente de atividade partidária, mas não basta, diante dos contornos culturais do nosso eleitorado. Se continuarmos deixando as decisões mais importantes para a maioria inconsciente, continuaremos tendo muito do que reclamar.

Para ser filiado a um partido político não é preciso ser alfabetizado. E a filiação é a complementação da cidadania. Coloca-nos em condições de ser aquilo que, pejorativamente, chamamos de político. É requisito para a candidatura. Para ser candidato, porém, aí o caboclo tem que aprender a ler e a escrever. Uma alternativa é fraudar essa condição, ser muito bem votado, e em seguida contar com a tolerância de quem deveria repelir a fraude. Mas aí é palhaçada.

Esclarecida a questão jurídica, passemos ao mundo real.

Falamos mal dos políticos como se não tivéssemos essa condição. O que nos difere daqueles a quem chamamos de políticos é o fato de que eles se filiaram e se candidataram. Ou seja: são mais cidadãos que nós, que não agimos tão completamente. Para a maioria das pessoas, político é o candidato que ganha eleição, que quase sempre é o candidato que teve mais dinheiro para comprar, às vezes indiretamente, os votos que a nossa democracia capenga exige.

Os quase conscientes dizem “fiz a minha parte, votei com critérios, escolhi um bom candidato”, e se isentam da culpa pela escolha coletiva. As pessoas, mesmo não sendo filiadas, precisam passar a ver a atividade política como algo inafastável da nossa vida. Os quase conscientes, com a atitude de criticar indistintamente e atribuir a pecha de ladrão a todos os políticos (e aí são atingidos até os que não foram eleitos por serem honestos), desestimulam o surgimento de candidatos como os que queremos.

Precisamos identificar entre nossos colegas de trabalho, de faculdade, entre nossos vizinhos, pessoas em que confiamos e que tenham qualidades e disposição para a atividade político-partidária, para que sejam os novos candidatos. No cenário atual, garanto que não faltará vaga em um dos partidos existentes. Essas pessoas precisam ser estimuladas a lançarem candidaturas, ou a se reunirem em torno de projetos e ideias, para que escolham um candidato, entre elas ou não, como representante. Muitos dirão que sem dinheiro não se ganha eleição. É uma desculpa desnecessária, afinal ninguém é obrigado a acreditar ou se engajar. Basta dizer que não quer mudar as coisas. O que o dinheiro compra é a mobilização e o voto, que podem ser obtidos sem custo em meio à parte mais qualificada do eleitorado, pobre ou rica, que tem número suficiente para eleger alguns candidatos. E se de fato não ganhar? Piorou? Pior é não tentar.

Por outro lado, já que cansa menos, precisamos, também, continuar reclamando e xingando, pois isso ajuda, mas, como dizia o quase analfabeto Seu Emídio, “se grito resolvesse, porco não morria”.

* Waldir Santos é Advogado da União, Professor e Radialista

(www.waldirsantos.com.br) E-mail: waldir@concurseiros.com.br

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Educação dez, consciência zero

Waldir Santos*

Pessoas bem intencionadas no Município de Piraquara (PR) conseguiram construir uma escola de excelente qualidade, voltada para a comunidade mais pobre. Os valores foram arrecadados entre voluntários e empresários, totalizando R$ 1,7 milhão, sem qualquer verba pública.

A escola funcionará em dois turnos, com três refeições, e curiosamente o custo por aluno é igual ao apontado nas contas do governo. Ou seja: essas pessoas conseguem produzir um resultado muito superior com os mesmos recursos. Como é que se faz isso? A escola é muito bem equipada, atende às necessidades especiais dos alunos e abre possibilidades para os que quiserem se aprofundar em temas mais complexos. Parece mágica! Por que isso não acontece em mais lugares no nosso País?

 

A resposta é simples e está nas matérias por meio das quais tomei conhecimento da existência do Centro de Educação João Paulo II. Apesar da evolução no campo do ensino, que permitiu a realização dessa grande obra, os profissionais e voluntários capitaneados pelo professor Belmiro Valverde estão afundados na ignorância política que ocasiona toda nossa miséria nos campos social, da saúde, da infraestrutura, da educação, da cultura, enfim em tudo aquilo onde as coisas poderiam ser diferentes se tivéssemos pessoas sérias interessadas em política.

 

Lamentavelmente, é colocado como prova de seriedade, e certamente para receber a aprovação e a confiança do povo, o fato de ninguém ter aspirações políticas no grupo que idealizou e criou a escola. Isso parece ser dito com orgulho. Ora, se não se depende de verba pública, que prejuízo haveria em agir com naturalidade em relação a isso, permitindo que pessoas de boa índole, honestas, criativas e competentes ocupassem, ou tentassem ocupar, algum espaço na política? Por que esse temor? Será que eles mesmos acham que a honestidade se esvairia com a sedução do poder?

 

Por conta dessa visão tacanha, que considera que gente séria é quem não se mete com política, teremos que amargar a inexistência de escolas com essa qualidade nos demais Municípios, e quem perde é o País. Os que criticam e acham que não se deve mesmo participar da política certamente estão medindo as pessoas com a sua própria régua. Se tivessem a oportunidade, pensam que seriam desonestos. Julgam a sagrada e necessária política pela qualidade dos políticos que elegem. Mas pergunto: será que entre os temidos ou imaginados críticos alguém é capaz de realizar obras da magnitude desse centro educacional? Certamente são pessoas mesquinhas, despreparadas, apáticas ante os problemas sociais, e que só vivem para opor dificuldades a tudo, já que não são capazes de realizar coisa alguma. E aí, os bons, para nossa tristeza, têm que ficar precavidos e temerosos, e iniciativas como essas não poderão se expandir para muitas outras pessoas.

 

Conheço gente honesta que não quer se candidatar por não ter recursos para uma campanha cara. Mas não é preciso comprar votos e eleições como os corruptos fazem. Aliás, nem é preciso ganhar eleições. O Brasil está mudando, e precisamos estar com os bons homens públicos prontos para quando chegar a hora.

 

A população precisa entender que a política faz parte da vida, e não podemos continuar proibindo os bons do seu exercício. Só sairemos da miséria educacional quando os poucos conscientes tiverem coragem de ocupar, na politica, o espaço que, pela omissão de muitos, fica vago para corruptos e incompetentes.

*Waldir Santos, Advogado da União e Professor, integra
o grupo multidisciplinar Babunamô (http://waldirsantos.com.br/babunamo),
que se propõe a identificar, orientar e apoiar pessoas com aptidões intelectuais
acima da média. E-mail: waldir@mensa.org.br
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Escola de ‘primeiro mundo’ é mantida integralmente por doações no Paraná

 

Empresários e voluntários levantaram R$ 1,7 milhão para a construção.
Orçamento para 2011 ano é de R$ 670 mil; nada vem do governo.

Vinícius Sgarbe Do G1 PR

“Uma escola para a cidadania é essencial, pois imaginar que alguém seja ignorante ou analfabeto funcional e cidadão ao mesmo tempo é um equívoco trágico, cometido com frequência no Brasil” – a definição é do professor Belmiro Valverde, a mente por trás do Centro de Educação João Paulo II.

A escola fica no município de Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba, onde o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica marcava 4 pontos até 2010. Junto a alguns outros municípios, beirando as piores notas do país. O bairro escolhido é pobre: ao sair da escola não há calçada, nem pavimentação na rua. A solução prometida no ano passado ainda não apareceu. O prefeito Gabriel Samaha (Gabão) não foi localizado.

Há um ano, para erguer as paredes projetadas pelo arquiteto Manoel Coelho, empresas e 120 voluntários abriram a carteira. Nenhum dinheiro veio ou vem do governo. Coelho projetou grandes universidades em Curitiba, como PUC e Positivo. O projeto da escola foi feito de graça.

“Uma verdadeira cidadania só pode existir quando as pessoas são educadas para ela”, diz Valverde. As doações somaram R$ 1,7 milhão, dinheiro que construiu uma “escola de primeiro mundo” – na constatação da gestora pedagógica do Grupo Bom Jesus, Giselle Hummelgen.

As salas estão bem equipadas: computadores, biblioteca, brinquedoteca, quadras para esportes, materiais. Caminhos para trabalhar conjuntos mais complexos do que o currículo obrigatório. Caminhos abertos para portadores de necessidades especiais: tudo é adaptado.

Bom Jesus e Sesi Paraná são parceiros em particular. O projeto pedagógico ficou com o primeiro e o segundo empreende um programa de ação social em conjunto com o Centro.

Nenhum dos fundadores têm objetivos políticos, como uma candidatura no futuro, garante o professor. Em um ano, a escola recebeu cinco certificações de utilidade pública, duas delas sancionadas por lei (uma municipal e outra estadual).

Neste mês Centro de Educação João Paulo II faz um ano. Em 2011, o segundo ano letivo. São 60 alunos da escola infantil, entre três e cinco anos de idade, selecionados pelo critério da renda familiar – quanto menor a renda, maior a prioridade para a matrícula. E em regime de contraturno, outras 100 crianças, alunas da Escola Municipal Julia Wanderley, seguem para o Centro – metade pela manhã, metade à tarde.

Os 160 alunos do Centro têm uma jornada escolar diária de mais de oito horas, a mesma dos países desenvolvidos e duas vezes maior do que a jornada comum nas escolas brasileiras.

O orçamento para este ano é de R$ 670 mil, valor que será coberto integralmente por doações de parceiros e voluntários. “O custo por criança é aproximadamente o mesmo que o Estado gasta em uma escola da rede pública”, explica Valverde. “Mas, no Centro, elas estudam em regime integral e recebem três refeições por dia, tudo de graça”.

Para manter tudo funcionando, a diretora Elizabeth Castor comanda uma equipe de 20 profissionais contratados; sete deles são professores com curso superior, especializados em educação infantil. O Sesi mantém ainda uma equipe de cinco pessoas, também com formação superior, para as atividades de contraturno, as extracurriculares e os programas comunitários.

A associação criada para gerir a escola “não tem nem quer lucro”. Dirigentes e associados não recebem qualquer remuneração, de qualquer natureza. “Nosso salário espiritual é mais do que suficiente, pois sabemos que estas crianças estão se desenvolvendo a cada dia, com o fermento de uma boa educação”, esclarece um dos oito fundadores do Centro e diretor Financeiro da mantenedora, Flavio Prestes.

Fonte: http://mpcidadania.ning.com/profiles/blogs/escola-de-primeiro-mundo-e

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