Poesia
Alguns sonetos sobre pessoas, nomes e datas. Tem tempo que os fiz, e resolvi compartilhar com os amigos.
Soneto da sereia
À noite morna o céu não se fechava
E o duro tempo sem querer seguir
Um olhar sereno e longo me encantava
E eu no Passeio quase quis dormir
Como podia ser tão linda e doce
Se isso eu nunca tinha percebido?
E à minha mente um pensamento trouxe
Que o tempo parecia ter vencido
“Comer alguma coisa no quintal”
Essa idéia não caía mal
E o coração, cansado, não tentara
Por conhecer a sua triste sina.
Eu quis chegar ao topo da Colina
E ver sorrir pra sempre a bela Iara
Soneto do outro dia
Na lua cheia de quinze de abril
Disse Fernanda: “Que de o meu poema?
Ou não mereço, como outras mil
O trafegar fugaz da tua pena?”
Então lhe disse: Tenho meus limites
Em cada dia falo dele só
Inda que nisso tu não acredites
Manter-me assim me soa bem melhor
E agora em casa, a pensar com calma
Ao refletir, alimentando a alma
Resolvo assim esta questão, e lembro
Vou dedicar estes versos do outono,
Mesmo sabendo que têm outro dono,
Pro dia vinte e oito de dezembro
Soneto da paz
Cento e dezoito, sorridente e bela
Prendeu os olhos de setenta e cinco
Na noite cheia do Casa Amarela
Em que eu brincava como sempre brinco
E essa prisão, que se mostrava forte
Já resistia à hora corrida
Quando surgiu o que parece a morte:
Sentir a dor pela sua partida
E ante as piadas do velho cupido
Só a voz dela vinha ao meu ouvido
E com detalhes de tudo me lembro
Mesmo na data triste do terror
Posso dizer, em nome do amor
Que isso é que é um onze de setembro
Soneto lírico-romântico-político
Nem bem o anjo se aboletava
A cochilar o sono da esperança
No seis de outubro que, enfim, chegava
A este Brasil, que de sonhar não cansa
Só o Cruzeiro, que eu não encontrei
E as Três Marias que me deram sorte
Foram capazes de notar, eu sei
Que eu descobri em ti meu próprio norte
E entre soluços a saltar do peito
Eu me senti, de ti, também eleito
Como uma pomba, do gradil, que pula
Entre suspiros que alteravam pulsos
E entre barulhos desses tais soluços
Como dissessem: “Sim, agora é Lula!”
Soneto da resignação
Quanta candura pode haver num rosto
Quanta beleza pode ter um olhar
Que satisfaça ao refinado gosto
E deixe o vate, triste, a sonhar?
Mesmo que o sonho permaneça em vão
E que o poeta chore um dia inteiro
É sempre um sonho útil ao coração
Como o que tive em três de fevereiro
E assim, quem sabe, um grande e eterno amor
Seja abortado no peito carente
Que em sua busca neste mundo anda
E mesmo assim, sentindo tanta dor
Possa dizer-se, afinal, contente
Por pelo menos conhecer Fernanda
Soneto do brilho
Tu não ficaste sem brilhar um dia
Desde que tive tua luz comigo
E pude crer que o amor surgia
Com meu olhar no teu buscando abrigo
Que dom estranho tens de cativar
Sem que percebas o que pode vir
E tens diversas formas de brilhar
Andar, olhar, falar, sorrir
Como sufoca o correr dos dias
Quando se esvaem as poucas alegrias
E a espera torna o mundo mais hostil
E a esperança volta a ser tristeza
Quando percebo se esvair Tereza
Ao vê-la novamente em três de abril
Soneto do encontro
Como um olhar que um dia se perdeu
Como um cantar que nunca mais se ouviu
E transformando um sonho que era meu
Em realidade, enfim, você surgiu
Estando ao fundo o grande elevador
Mera moldura de uma face bela
E sob os pés o mar em seu furor
A suspeitar que, talvez, fosse ela
E eu não cansava de me perguntar:
Como podia ser tão doce um olhar
Para afastar de vez toda tristeza?
E fui feliz naquele dois de março
Sem me deixar vencer pelo cansaço
Ao perceber que eu encontrei Tereza
Soneto da cantada inútil
Um susto, um pulo, enfim, uma cantada
E lá estavas diante de mim
Naquela noite mal iluminada
Em que eu buscava afoito ouvir um sim
Mas não querias mais que uma conversa
Umas risadas pra afastar o sono
E, por não suportar a minha pressa
Seguiste e eu quedei-me em abandono
E então fiquei a matutar na areia
Como a aranha a tecer a teia
De que maneira te capturar
E percebi que não tinha mais jeito
E vou seguir com minha dor no peito
Que só um beijo teu pode curar
Soneto dos pampas
Era janeiro, dia vinte e cinco
Na madrugada que se iniciava
Eu nem queria brincar como brinco
Pois meu olhar do seu não se afastava
E entre cantores, toscos e insistentes
A sua voz, somente, me atingia
E o seu olhar, cruel, como correntes
À sua face o meu olhar prendia
E nos grilhões que tanto esperei
Mesmo que quase desistisse, eu sei
Tinha dos pampas a visão mais bela
E mesmo triste com sua partida
Pude fruir, enfim, um dom da vida:
De conhecer, um dia, Daniela
Soneto da carona
Peguei carona num sorriso doce
E meu olhar perdeu a direção
Ao encontrar o teu olhar, que trouxe
Ao meu olhar o fim da solidão
Tinhas a aura de uma diva, e logo
O teu encanto me isolou do mundo
Mesmo não sendo nada, ainda folgo
Pois me olhaste mais que um segundo
E eu, de feliz, passei a um cego mudo
Só a ti via no lotado Ex-Tudo
E na garganta tinha aquele nó
Nove de julho – e o meu coração
Chegava, enfim, à firme conclusão
De que não cabes num soneto só
Soneto do sonho
Quinze de junho. Sonhei que te via
E dezesseis o sonho confirmou-se
E aquele olhar, que vi no meu um dia,
Partiu, no mesmo furacão que o trouxe
Como é fugaz o tempo em que te alcanço
Como é veloz o teu partir frequente
Mas de seguir-te, mesmo em vão, não canso
E sempre escapo, nunca impunemente
E fica a dor, num peito tão vazio
Que já padece nas noites de frio
Por não sentir, em si, o teu colado
E segue a vida, e vem mais um poema
Onde se aborda o preferido tema
Deste que sonha em ser teu namorado
Soneto da esperança
Hoje te vi, de novo, em mais um rosto
E percebi que já me acostumei
A conviver, enfim, com um fato posto:
Não me conheces, mas, quem és, eu sei
E vou seguindo, assim, com a esperança
De que um dia olhes para mim
E, no olhar, uma estranha e vã lembrança
Possa dizer que me encontraste, enfim
E que sonhavas até com meu cheiro
E na procura foste ao mundo inteiro
Pra me encontrar, que bom, tão ao teu lado
Pleno de encantos, estarei num sonho
E vendo em mim o que, em pensar, proponho
Possas dizer: “quer ser meu namorado?”
Quero-te
Quero compor-te neste verso errante
Imaginar a fúlgida candura
E transformar um rústico semblante
Em face altiva, apaixonante e pura
Quero escutar e repetir os sons
Que dos teus lábios nunca vão sair
E acreditar que serão sempre bons
Já que somente eu consigo ouvir
Quero-te linda, forte e endeusada
Amante a outra nunca comparada
Que só em mim o teu olhar invistas
Quero-te sempre fonte de alegria
Pois estarás comigo noite e dia
Ainda que em verdade não existas.