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Educação

O ENEM evidencia a farsa cruel

Waldir Santos*

Na avaliação do ENEM, os 5 melhores colégios de Salvador admitem seus alunos predominantemente por meio de processo seletivo. Há sinal mais evidente do que esse no que se refere à solução para os problemas da educação? Não há, portanto, tanto mérito quanto se pinta, e com isso não pretendo desmerecer as qualidades dos gestores e professores de tais unidades escolares. Afirmo, no entanto, que o mais importante para esse resultado é o aluno que lá se matricula, seja pelo processo seletivo formal, seja pela consciência de que lá a cobrança é mais rigorosa.

Infelizmente seguimos em direção ao abismo natural, perdendo qualidade a cada ano, com as equivocadas medidas governamentais que proíbem a reprovação do aluno sem rendimento, e com a avidez orçamentária que cria estatísticas fantasiosas nos municípios. O nível tem baixado tanto que se perde até o parâmetro para avaliação das poucas escolas que melhoram.

Por mais doloroso e politicamente incorreto que possa parecer, é óbvio, como os franceses, através de Alfred Binet, já sabem desde 1905, que os estudantes devem ser atendidos por seu nível de conhecimento e potencial de aprendizado. A maioria da pedagogia brasileira caminha no sentido oposto. Por que o principal instituto de matemática e algumas das melhores universidades do mundo estão na França?

Muito se fala e se escreve sobre a educação, e é quase unanimidade que todos os problemas serão resolvidos a partir dela. Mas tanto falatório esbarra na falta de coragem de profissionais da educação e governantes, que querem sempre estar bem com a opinião pública ou com o eleitor. Não se faz, em virtude disso, uma análise real, cruel e sincera sobre o problema.

Não podemos continuar torturando os alunos, por mais elevados que sejam os equivocados fins, presumindo um conhecimento que eles não têm, pois o mercado de trabalho será implacável e vai jogá-los no desemprego ou no sub-emprego. Infelizmente eles lembrarão apenas da carinhosa professora, e nunca desse nefasto sistema educacional que destrói as riquezas do nosso País.

Classificar os estudantes por seu nível de aprendizado não é condená-los à humilhação. Ao contrário, é impedir que continuemos desperdiçando os talentos, fruto de aptidões naturais e de esforço e técnica, enquanto os profissionais de outros países invadem nossas vagas de emprego mais desejadas e melhor remuneradas. Os que tiverem maior dificuldade ou base insuficiente devem ter atenção específica e cuidados especiais, para que possam se igualar aos demais em condições e oportunidades no futuro. Em lugar disso, o que vemos é a educação brasileira jogando o despreparo para debaixo do tapete.

Para os que discordam, e certamente aplaudem o rendimento dos colégios campeões, quero lembrar que o que os melhores colégios fazem é exatamente isso, mas de maneira mais conveniente, sem recibo passado.

Coloquemos os alunos dos melhores colégios nos piores, e vice-versa. Isso, apesar de algum prejuízo natural, evidenciará que bons alunos importam mais que bons professores e boa estrutura. É preciso abrir os olhos para entender que o bolo feito pela nossa avó era mais gostoso por que tinha os melhores ingredientes e era feito com mais carinho, apesar de ela não ser graduada em gastronomia e nem possuir uma batedeira.

*Waldir Santos é Advogado da União e Professor, e integra o grupo multidisciplinar Babunamô (http://waldirsantos.com.br/babunamo), que se propõe a identificar, orientar e apoiar pessoas com aptidões intelectuais acima da média. E-mail: waldir@mensa.org.br

 

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Educação: Onde tem recursos, falta gestão

 

Ontem fiz uma palestra no Colégio Anísio Teixeira, na Ladeira do Paiva (entre a Caixa D’água e a Estrada da Rainha)  e no final os alunos comentaram que existem 30 computadores novos que não podem ser instalados,  em razão de a rede elétrica da escola estar sem condições. As goteiras saem das lâmpadas fluorescentes, quando chove. O técnico disse que não poderia instalar os computadores, e a escola fica sem o laboratório de informática.

Além disso, a biblioteca da escola, um amplo espaço com bastante material para estudo, mesas e cadeiras confortáveis, que visitei, não pode ser usada. É um forno, mesmo em noite de chuva, como ontem, onde as janelas de vidro são travadas e não há ar condicionado.  Há recursos para os aparelhos de ar-condicionado, mas a rede elétrica não suportaria a instalação, segundo os eletricistas.

 

O laboratório de informática não existe, apesar de existirem os computadores, e a biblioteca fica fechada, apesar de existir.

 

Quem pode fazer alguma coisa?

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Livro distribuído pelo MEC traz conta com 10 – 7 = 4

Publicado em 03.06.2011, às 22h35

A Controladoria Geral da União (CGU) deve apurar quem foram os responsáveis pelos erros encontrados numa publicação distribuída pelo Ministério da Educação para escolas rurais em todo país no final do ano passado.

Técnicos do próprio ministério descobriram textos com frases que não terminam e contas aritméticas com resultado errado, como é o caso da conta: 10 – 7 = 4

A revisão do conteúdo dos livros foi feita pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad). Ao todo foram distribuídos 200 mil exemplares da coleção que tem 35 volumes e custou R$ 14 milhões.

Fonte: Agência nacionais

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A pedagogia da ignorância

Do Estadão

Ao anunciar que o Ministério da Educação (MEC) não recolherá o livro didático com erros gramaticais distribuído a 485 mil estudantes, o ministro Fernando Hadad voltou a ser protagonista de confusões administrativas. Depois das trapalhadas que cometeu na aplicação do Exame Nacional do Ensino Médio em 2009 e 2010, agora ele afirma que não pode interferir no conteúdo das publicações adquiridas pelo Programa Nacional do Livro Didático nem julgar o que é certo ou errado em matéria de português, cabendo-lhe apenas decidir o que é “adequado” em política pedagógica.
Com isso, embora tenha por diversas vezes prometido melhorar a qualidade do ensino fundamental, Haddad, paradoxalmente, endossou a pedagogia da ignorância. Produzido por uma ONG e de autoria da professora Heloísa Ramos, o livro Por uma vida melhor defende a supremacia da linguagem oral sobre a linguagem escrita, admitindo que “é certo falar errado”. Corrigir o erro é “preconceito”. A tese não é nova, já foi rechaçada pela Academia Brasileira de Letras e sempre foi duramente criticada nas faculdades de pedagogia. Além disso, o livro do MEC que admite erro de português não é uma obra de linguística, mas uma publicação pedagógica. Não foi escrito para linguistas, mas para quem precisa de um bom professor de português para ler, falar e escrever de modo correto – condição básica para que se possa emancipar culturalmente.
“Não tem de se fazer livros com erros. O professor pode falar na sala de aula que temos outra linguagem, a popular. Os livros servem para os alunos aprenderem o conhecimento erudito”, diz a professora Míriam Paura, do Programa de Pós-Graduação em Educação da UERJ. “Uma coisa é compreender a evolução da língua, que é um organismo vivo. A outra é validar erros grosseiros. É uma atitude de concessão demagógica. É como ensinar tabuada errada. Quatro vezes três é sempre doze, seja na periferia ou no palácio”, afirma o escritor Marcos Vilaça, presidente da ABL.

Sem argumentos para refutar essas críticas, o MEC alegou que a aquisição do livro Por uma vida melhor foi aprovada por “especialistas”, com base em parecer favorável de docentes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, e afirmou que o edital para a aquisição de livros didáticos enfatiza a importância de “novos tipos de reflexão sobre o funcionamento e as propriedades da linguagem em uso” e da “sistematização dos conhecimentos linguísticos correlatos mais relevantes”. Isso dá a medida da falta de rigor do processo de escolha, que “desperdiça dinheiro público com material que emburrece, em vez de instruir”, como diz a procuradora da República Janice Ascari.

A autora do livro politizou a discussão. “No tempo em que só a elite ia para a escola, talvez a norma culta bastasse. Hoje, com o acesso da classe popular, a formação tem de ser mais ampla. Nosso livro é direcionado para aquele que pode ter sido discriminado por falar errado”, disse ela. Em outras palavras, exigir a correção de linguagem é ser preconceituoso. A reação foi imediata. “É um absurdo esse paternalismo condescendente de não corrigir erros gramaticais. Com isso, consolida-se o conceito de coitadinho, pernicioso e prejudicial ao desenvolvimento dos cidadãos. Qualquer um pode cometer os barbarismos linguísticos que quiser, mas deve saber que eles só se sustentam dentro de um contexto e têm preço social”, diz a escritora Ana Maria Machado, doutora em Linguística e Semiologia, integrante da ABL e ganhadora do Prêmio Hans Christian Andersen – o Nobel da literatura infantil.

Como o País tem um padrão de ensino reconhecidamente baixo, o que se deveria esperar do MEC é um mínimo de responsabilidade na escolha dos livros didáticos distribuídos na rede pública. Ao impor a pedagogia da ignorância a pretexto de defender a linguagem popular, as autoridades educacionais prejudicam a formação das novas gerações.

É por isso que um grupo de membros do Ministério Público, liderado pela procuradora Janice Ascari, anunciou que processará o MEC por “crime contra a educação”.

 

Fonte: http://m.estadao.com.br/noticias/impresso,mobile,720732.htm , acesso 18 Mai 2011

 

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Salvar a educação brasileira

Waldir Santos*

Pus-me a escrever para apoiar a campanha lançada pelo sempre oportuno Professor Jorge Portugal, em favor do ensino público brasileiro, mas o faço com alguns senões. Para quem não conhece, Portugal é uma dessas pessoas geniais e imprescindíveis, sem as quais o mundo não seria como é, e sim muito pior. Dedica-se à educação com raro talento, grandes ideias e um amor imensurável. Eu, que prazerosamente trago na memória a imagem e a ação de grandes mestres que tive, lamento não ter sido seu aluno, para reverenciá-lo com mais autoridade.

De pronto o seu texto “Se escola fosse estádio e educação fosse Copa…” me remete a outro, do economista Cláudio de Moura Castro, também indispensável, intitulado “No futebol, pode…”, escrito há cerca de seis anos. Têm objetivos comuns, comparam o tratamento dado ao futebol com o dado à educação em nosso País, mas seguem caminhos diferentes, complementares. O economista enfoca a necessidade de garimpagem, no nosso péssimo sistema de ensino, do talento intelectual destacado, já que inteligência não escolhe classe social, para que os bons cérebros, hoje desperdiçados e cedidos, por exemplo, ao crime organizado, encontrem as soluções para esse e outros problemas brasileiros. A sua ideia não exclui a realização de outras medidas necessárias, de caráter geral e abrangente, mas encontra resistência, às vezes explícita, em governantes populistas ou que temem ver evidenciada sua omissão em relação à legislação que trata da educação especial, como a de um Secretário de Educação de São Paulo que disse que lá não havia superdotados, pois todos os estudantes eram “igualmente muito inteligentes”, e impediu o funcionamento, sem ônus para o Estado, do Instituto Social Para Motivar, Apoiar e Reconhecer Talentos – ISMART, o qual mudou suas atividades para o Rio de Janeiro. Ele não tem ideia de quantos jovens e quantos sonhos matou, e quantas soluções abortou, com tamanha tolice.

Portugal trata da necessária valorização do professor, e alude a um projeto elogiável de autoria do Senador Cristovam Buarque, outra grande personalidade dedicada à educação, que propõe a federalização do ensino básico, com o pagamento de salários dignos. Mesmo entendendo que o bom interesse político poderia fazer isso no âmbito dos Estados e Municípios, e que boa remuneração para professor é um sonho distante, concordo com a proposta. O ponto ao qual me oponho, por depor contra as intenções do próprio Senador e de todos os que querem melhorar a educação, é o projeto de lei do Senado 480/2007, que pretende obrigar os agentes públicos eleitos a matricularem seus filhos em escola pública de educação básica.

Li com calma a íntegra do projeto de lei e sua justificação, e se refletirmos com tranquilidade veremos que se trata muito mais de uma tentativa de vingança contra os péssimos políticos que temos, a qual não surtirá efeito algum em relação a eles, mas servirá para manter as coisas como estão. A lei deveria impor regras que tendessem a melhorar o sistema, e não esperar que os políticos – que sem dúvida alguma terão solução individual mais barata para seus interesses familiares – passem a se preocupar, por decreto, com o problema coletivo. Eles sabem que se a educação melhorar, em pouco tempo eles não estarão no lugar onde estão, pois o povo aprenderá a votar, e os culpados, numa situação como essa, não terão o dinheiro da corrupção para mandar seus filhos para escolas na Itália, Inglaterra, EUA ou França. Talvez o vereador do interior e o político honesto, e por isso mesmo pobre, sejam os bois de piranha. Os culpados sairão impunes.

Toda norma facilmente burlável é concretamente inútil. A obrigatoriedade de matricular os filhos na escola pública não implica a proibição de matricular na escola particular, ou a contratação dos melhores professores para, em domicílio, ampliar a distância cultural entre ricos e pobres. Não precisamos ir longe: com o advento das cotas raciais, muitas pessoas, que certamente concordam com o projeto 480, matricularam seus filhos na escola pública para que eles tivessem direito ao benefício, mas eles continuavam frequentando também a escola onde aprendiam, e cuja referência hoje colocam no perfil do Facebook. Se o cidadão indignado pratica semelhante ardil, imaginemos o que pode sair da cabeça do político habituado à prática de delitos.

Compreenderemos o absurdo da medida se fizermos uma analogia com o também péssimo sistema de saúde, merecedor de medidas urgentes. Alguém seria capaz de proibir que um político pudesse lançar mão de seu plano de saúde, pago há tantos anos, ou de seus milhões, para ir para uma UTI em hospital privado, e deixaria que ele morresse na fila para internamento nos insuficientes e fétidos leitos da rede pública? Ou alguém espera que no leito de morte ele volte ao passado e seja rigoroso com os colegas corruptos, denuncie-os e magicamente passemos a ter o sistema de saúde da Islândia? Vejam que informação surreal, saindo da boca da atendente do melhor hospital de Salvador: “Senhor, infelizmente o senhor não vai poder estar sendo atendido em nosso hospital, pois consta do sistema nacional de controle de políticos que o senhor é vereador na cidade de Tarauacá, no Acre”.

Se em relação a algo tão imediatista como o tratamento de saúde, e mesmo sabendo que, em acidentes, ricos e pobres vão inicialmente para a emergência pública, eles não se preocupam, imaginemos em relação à educação dos dependentes, cujas soluções são calmamente pensadas e planejadas. Se o amigo leitor ainda não concorda é porque não valoriza tanto a educação como valoriza a saúde.

Infelizmente político sério não tem coragem de defender este ponto de vista publicamente, pois certamente perderá votos e abrirá flanco para críticas, como se ele estivesse defendendo interesses próprios, quando sabemos que seria fácil, pra ele, desbordar do problema. Assim, acho até provável, para o mal da educação, que o projeto seja aprovado, pois a vingança acalma o ânimo, e os políticos querem estar em paz com o povo. E a luta para melhorar a educação arrefecerá, pois tolamente a maioria pensará que os culpados estarão sofrendo junto com o povo, que se contenta com pouco, por não saber da sua força. E o pior: será mais uma “lei que não pegou”, como tantas em nosso País.

A infeliz proposta foge do foco e não resolve o problema. Não se extingue o mal impondo-o ao causador, e, como as vítimas continuarão sofrendo, é nítido o agravamento com o aumento do número de alunos. Temos escolas públicas sem cadeira, sem telhado, sem giz e até sem paredes, e as contas de sua “reforma” são aprovadas. Alguém duvida que em cada capital haveria uma escola pública de excelência, onde até mesmo os políticos de oposição teriam prioridade para matricular seus filhos? Talvez uma solução parcial seja sair do comodismo da omissão política e afastar os agentes públicos que fazem com que o nosso povo leia as oito páginas de jornal sobre futebol e desconheça que há uma coluna sobre educação. Mas isso cabe a nós. Ao editor-chefe do jornal cabe mandar escrever o que o povo quer saber: se foi ou não foi impedimento, e se o zagueiro fulano será liberado pelo departamento médico do clube.

Soluções temos. Há ideias geniais, que não estão exatamente na lei, mas na mudança de atitude em relação à educação, como as incansavelmente pregadas pelo Professor Pierluigi Piazzi, a experiência – hoje abandonada nos escombros da Escola Parque – de Anísio Teixeira, e tantas outras. Ao lado da solução imediata para o todo, é preciso pensar no futuro próximo. Nossos melhores cérebros estão sendo atraídos pela Europa e EUA, quando não abandonam a escola antes. Eles poderão oferecer soluções melhores que as que temos. Em educação, não se consegue corrigir um País por decreto.

O Projeto Babunamô, abraçado pelo Grupo Germen Socioambiental, se propõe a dar uma contribuição na identificação e oferta de uma chance aos talentos que hoje perdemos para outros países, para a sarjeta e a loucura, ou simplesmente para o tráfico. Sou soldado de sua luta, Jorge Portugal, e peço sua ajuda na atração de braços e mentes voluntárias para a implementação de uma ideia que quer fazer com que a iniciativa social organizada, e não apenas o acaso, possibilite-nos receber no lado do bem outros Jorges, Caetanos, Tons e Valentes, para ficarmos somente no meu Recôncavo.

A realidade do ensino brasileiro é um naufrágio, e precisamos apoiar os mais aptos para que nadem até a terra firme e nos tragam o socorro que ajudará a todos.

*Waldir Santos é Advogado da União e radialista (waldir@concurseiros.com.br)

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Se escola fosse estádio e educação fosse Copa…

Jorge Portugal
De Salvador (BA)


Canteiro de obras da reconstrução do Estádio da Fonte Nova,
em Salvador (foto: LOC/Divulgação)

Passeio, nesses últimos dias, meu olhar pelo noticiário nacional e não dá outra: copa do mundo, construção de estádios, ampliação de aeroportos, modernização dos meios de transportes, um frenesi em torno do tema que domina mentes e corações de dez entre dez brasileiros.

Há semanas, o todo-poderoso do futebol mundial ousou desconfiar de nossa capacidade de entregar o “circo da copa” em tempo hábil para a realização do evento, e deve ter recebido pancada de todos os lados pois, imediatamente, retratou-se e até elogiou publicamente o ritmo das obras.

Fiquei pensando: já imaginaram se um terço desse vigor cívico-esportivo fosse canalizado para melhorar nosso ensino público? É… pois se todo mundo acha que reside aí nossa falha fundamental, nosso pecado social de fundo, que compromete todo o futuro e a própria sustentabilidade de nossa condição de BRIC, por que não um esforço nacional pela educação pública de qualidade igual ao que despendemos para preparar a Copa do Mundo?

E olhe que nem precisaria ser tanto! Lembrei-me, incontinenti, que o educador Cristovam Buarque, ex-ministro da Educação e hoje senador da República, encaminhou ao Senado dois projetos com o condão de fazer as coisas nessa área ganharem velocidade de lebre: um deles prevê simplesmente a federalização do ensino público, ou seja, nosso ensino básico passaria a ser responsabilidade da União, com professores, coordenadores e corpo administrativo tendo seus planos de carreira e recebendo salários compatíveis com os de funcionários do Banco do Brasil ou da Caixa Econômica Federal. Que tal? Não é valorizar essa classe estratégica ao nosso crescimento o desejo de todos que amamos o Brasil? O projeto está lá… parado, quieto, na gaveta de algum relator.

O outro projeto, do mesmo Cristovam, é uma verdadeira “bomba do bem”. Leiam com atenção: ele, o projeto, prevê que “daqui a sete anos, todos os detentores de cargo público, do vereador ao presidente da República serão obrigados a matricular seus filhos na rede pública de ensino”. E então? Já imaginaram o esforço que deputados (estaduais e federais), senadores e governadores não fariam para melhorar nossas escolas, sabendo que seus filhos, netos, iriam estudar nelas daqui a sete anos? Pois bem, esse projeto está adormecido na gaveta do senador Antônio Carlos Valladares, de Sergipe, seu relator. E não anda. E ninguém sabe dele.

Desafio ao leitor: você é capaz de, daí do seu conforto, concordando com os projetos, pegar o seu computador e passar um e-mail para o senador Valadares (antoniocarlosvaladares@senador.gov.br) pedindo que ele desengavete essa “bomba do bem”? É um ato cívico simples. Pela educação. Porque pela Copa já estamos fazendo muito mais.

 

Jorge Portugal é educador, poeta e apresentador de TV. Idealizou e apresenta o programa “Tô Sabendo”, da TV Brasil.

 

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No futebol, pode…

Claudio de Moura Castro

“Ao contrário do que ocorre no futebol,
educadores populistas
não aceitam que
na educação se selecionem os alunos mais
promissores
e se dêem a eles as condições
para que
desabrochem seus talentos”

Quantos clubes de futebol têm escolinhas para garimpar e lapidar futuros jogadores. São muitas e merecedoras de aplausos as escolinhas, pelo trabalho de identificar e preparar os jogadores que nos fascinarão com a sua magia. A regra é simples: olheiros garimpam talentos e trazem os melhores para o regime férreo da escolinha. Ao fim das Olimpíadas de 2004, descobriu-se o óbvio: se fizéssemos o mesmo em outros esportes, conquistaríamos mais medalhas.

Mas, curiosamente, educadores de estirpe populista não aceitam que se faça o mesmo na educação, selecionando os alunos mais promissores e dando a eles as condições propícias para que desabrochem seus talentos. Um alto funcionário do MEC confessou candidamente que lhe dói o coração ver alguém sendo premiado. Renegando a Olimpíada de Matemática, porque só premia alguns poucos vencedores, pergunta outro dignitário: e os pobres?

Mas essa é a pescaria que vai escolher aqueles que irão desempenhar funções de liderança, receber responsabilidades maiores na administração e impulsionar a ciência. São eles os que podem mudar o país.

Ilustração Ale Setti

De fato, nenhuma nação séria se dá ao luxo de desperdiçar talentos latentes. Todas têm mecanismos competentes para pescar os talentos que se escondem nas camadas mais modestas da sociedade – dos alunos mais ricos, as próprias famílias cuidam. Nos Estados Unidos, há as chamadas magnet schools e muitas universidades têm programas voltados para alunos superdotados do ciclo básico. A Rússia sempre teve tais programas. Artistas, atletas e os superdotados eram desviados para escolas especiais. Cuba faz o mesmo.

Nossos governantes acham feio tirar os pobres talentosos do meio em que vivem (os países ricos estão errados, só nós estamos certos!). Mas, segundo os psicólogos especializados, esse meio abafa os talentos. Os colegas obrigam muitos a fingir mediocridade para não serem marginalizados. Outros enterram seu talento por não serem socialmente aceitos. Os próprios pais não os valorizam, e há os que preferem esmagar traços tão inquietantes. Os professores recusam tais alunos, cruz-credo, por não saberem como lidar com eles. Mas a doutrina dos gurus de plantão é que não se pode tirá-los do seu meio (ficam assim mais acessíveis para ser recrutados pelo narcotráfico, que gosta de talentos).

Acreditando que não há maior riqueza em um país do que cérebros bem preparados, uma instituição filantrópica privada chamada Ismart (www.ismart.org.br) criou programas para identificar superdotados pobres, em escolas públicas, e prepará-los para ganhar uma bolsa de estudos em boas escolas privadas do Rio e de São Paulo. O objetivo é que passem em vestibulares de primeira linha. Com o aperfeiçoamento do programa, os testes serão substituídos por “olheiros” acadêmicos, isto é, professores treinados para observar os alunos, na busca dos que têm os melhores prognósticos de uma carreira escolar destacada.

Pode haver maior justiça social do que permitir aos bem-dotados pobres atingir os mesmos píncaros profissionais que os ricos atingem? Pode haver maior desperdício e injustiça do que deixar fenecer em escolas medíocres os futuros Einsteins e Bill Gates?

Pois bem, ao programa custou obter autorização para aplicar os testes que identificam os mais talentosos nas escolas públicas do Rio. Em São Paulo, foi negada. Não é politicamente correto identificar quem são os superdotados. É palavra feia. Que persista a maldição da mediocridade para todos. Burocratas até sugeriram que o programa fosse transformado em um outro para alunos com dificuldades.

Infelizmente para o país, existem poucos programas como o Ismart. Embraer/Pitágoras tem uma escola, há uma em Lavras e em Brasília há algo do gênero. Podemos selecionar atletas, podemos garimpar diamantes brutos no cascalho. Mas é pecado ideológico garimpar as inteligências que brilham como diamantes. Essa é a noção de justiça social de alguns dos nossos educadores. Dos superdotados, lapidaremos apenas os ricos, pois o Estado não consegue impedir as ações paternas para valorizá-los. Mas, no futebol, pode.

Claudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)

 

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Ser traficante é sinal de inteligência? Talvez

Gilberto Dimenstein

O Colégio Objetivo procurou, no ano passado, superdotados entre alunos da sétima série de 51 escolas da rede municipal da cidade de São Paulo. Os escolhidos ganhariam mensalidade gratuita, aulas no curso pré-vestibular, bolsa em dinheiro e ajuda extra para desenvolver suas aptidões. Depois de meses de seleção entre uma gigantesca fila de pretendentes, sobraram 11 vitoriosos.

Como em qualquer agrupamento humano existe uma porcentagem de indivíduos com aptidões acima da média (assim como de deprimidos e ansiosos), se aquela seleção fosse estendida para todas as sétimas séries da rede municipal, na qual existem cerca de 500 escolas, teria revelado, no mínimo, 50 superdotados. Estimulados para transformar seu potencial em alguma habilidade, a probabilidade é que se desenvolvessem acadêmica e profissionalmente. É óbvio.

Não é óbvio, porém, qual seria o resultado se, em vez de apoiados para avançar nos estudos, os integrantes desse grupo permanecessem em escolas de baixa qualidade, não conseguissem emprego e vivessem em comunidades miseráveis.
Provavelmente, muitos deles usariam sua inteligência e espírito empreendedor para liderar gangues, seqüestrar, assaltar ou traficar drogas. Fala-se muito que a criminalidade é conseqüência de uma série de combinações sociais, culturais e econômicas. Mas quase nunca se fala que ela também é o resultado perverso da inteligência.

Nunca vi nenhum teste de inteligência aplicado entre líderes de gangues, mas o que sempre me chamou a atenção, observando crianças e adolescentes envolvidos no crime, é uma visível esperteza e rapidez de raciocínio, apuradas na seleção “natural” da rua.

O chefe de gangue tem noções de táticas e estratégias que fariam dele um executivo de empresa, empresário ou governante. Trabalha-se muito, sob intenso estresse, com os mais variados riscos, o que exige foco, disciplina e habilidade de gestão de equipes.

Não estamos apenas desperdiçando talentos de possíveis futuros músicos, médicos, engenheiros, empresários, mas transformando-os em inimigos da sociedade, gente que nada constrói, só destrói. Ou seja, o custo social é dobrado.

Na semana passada, assistimos à mais contundente investigação já realizada sobre a violência que atinge crianças e adolescentes no Brasil, com a divulgação, no “Fantástico”, das gravações feitas pelo rapper MV Bill e o produtor Celso Athayde sobre o tráfico de drogas. É o marco mais importante na cobertura jornalística sobre a delinqüência juvenil.

O envolvimento dos adolescentes no tráfico de drogas e seu extermínio ressaltam a mais grave armadilha social brasileira: os milhões de jovens sem perspectiva. É o preço mais alto de toda a nossa história de exclusão, de deficiência escolar e de baixo crescimento econômico. Segundo estatísticas oficiais, 27% dos jovens entre 15 e 24 anos não trabalham nem estudam em apenas oito regiões metropolitanas. Isso significa 1,7 milhão de desesperançados. Justamente nesse contexto alguns dos mais empreendedores e mais inteligentes serão recrutados pelas quadrilhas.

Na semana passada, foram divulgados estudos do Ministério da Educação e do IBGE dando pistas sobre alguns dos ingredientes que produzem essa desesperança. Apenas 11% das crianças estão em creche, os alunos de escolas pública têm aulas mais curtas e estudam em salas superlotadas. Em 2004, 15 em cada 100 alunos do ensino médio abandonaram a escola; isso representa 1,4 milhão de cidadãos condenados à baixa escolaridade.

Se em um ínfimo grupo de 51 escolas públicas encontramos 11 superdotados, quantos haveria num universo de 1,7 milhão de jovens que não trabalham nem estudam? Sempre vale repetir um magnífico ditado: se você acha que educação custa caro, tente calcular o preço da ignorância.

Um desses custos apareceu nos vídeos de MV Bill e Celso Athayde – dos 16 meninos acompanhados nessa investigação, 15 morreram e o outro está preso. Ou em cenas que não foram divulgadas, como a de uma menina de nove anos fazendo sexo oral num traficante para ganhar em troca cocaína.

P.S. : Estou cada vez mais convencido de que o problema da violência é mescla da pobreza com a destruição de laços afetivos das crianças e dos jovens; essa destruição é o que os remete para o mundo da invisibilidade. Daí que o desajuste familiar é uma das bases da violência. Não iremos muito longe sem educar as famílias, oferecer atenção desde o momento em que a criança nasce (por isso é tão prejudicial o número baixo de matriculados na creche), transformar a escola em centro comunitário e garantir meios de expressão através das mais diversas formas. O próprio MV Bill é um exemplo: ele sabe que, não fosse a música, poderia ter sido mais um daqueles meninos assassinados que filmou. Nunca se produziu no país um plano consistente para evitar a delinqüência juvenil. Quantos filmes e livros terão de ser lançados para que se monte um plano articulado em todos os níveis para enfrentar nossa guerra civil? Lamento informar, mas só crescimento econômico, geração de empregos e mais repressão não resolverão, nem remotamente, essa guerra.

Gilberto Dimenstein, colunista e membro do Conselho Editorial da Folha de S.Paulo e comentarista da rádio CBN, é fundador da Associação Cidade Escola Aprendiz (gdimen@uol.com.br)

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